quarta-feira, 25 de agosto de 2021

JAMESON, MORALISMO E PÓS-MODERNIDADE

A tentação a evitar era , acima de tudo, era a do moralismo. A cumplicidade do pós-modernismo com a lógica do mercado e do espetáculo era inequívoca. Mas a sua simples condenação era inútil. Repetidamente -- para supresa de muitos, tanto à esquerda quanto à direita -- Jameson insistiu na futilidade de moralizar sobre a ascensão do pós-moderno. Por mais acurados que fossem seus juízos locais, esse moralismo era um "luxo empobrecido" que uma visão histórica não podia se permitir. Nisso, Jameson era fiel a convicções antigas. As doutrinas éticas pressupunham uma certa homogeneidade local, em que podiam reescrever exigências institucionais como normas interpessoais e com isso reprimir realidades políticas nas "categorias arcaicas do bem e do mal, de há muito desmascaradas por Nietzsche como vestígios sedimentados das relações de poder. Bem antes de discorrer sobre o pós-moderno, ele definiu a posição com que o veria: "a ética, onde quer que reapareça, pode ser tomada como um sinal de tentativa de mistificar e em particular de substituir os juízos complexos e ambivalentes de uma perspectiva mais propriamente política e dialética pelas confortáveis simplificações de um mito binário"

em: Perry Anderson. As origens da pós-modernidade. Zahar editora, 1999.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

QUEM

Like a fool
Looking for you
What do I do?
Who am I?
 
I’m a stupid
With my shirt
Cobain Kurt
Who I am?
 
Quem?
Lulu lulu lululu
Quem?
Lulu lulu lululu
 
Spinning round
Falling down drunk
I’ve found my friends
Who am I?
 
Cadê minhas lentes?
Minha identidade
That was when?
Who I am?

Quem?
Lulu lulu lululu
Quem?
Lulu lulu lululu

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Tanto Mar

Imperpetuáveis ninfas
No ciberespaço do céu de Hong Kong
Sombras se esvaindo no juncal

Fauno delirando entre bombas
Abraçando o sonho e o real
Amassando o ar

Incomunicáveis corpos
Pulsam no espelho elétrico do mar de Bangkok
Hostes se adensando no jornal

Falos balas gás lacrimogêneo
Náufrago no artificial
Monte Santo Paz Celestial
 
Myanmar Myanmar Myanmar Myanmar
 
Quem sabe as almas toquem-se afinal
Nas vagas calles vogues sol de Medellín
Infinitas almas

terça-feira, 25 de maio de 2021

BOCAGE: "A FROUXIDÃO NO AMOR É UMA OFENSA"

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão; fevor, e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.


Vê qual sou, vê qual és, vê que dif'rença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;

Em sombras a razão se me condensa.


Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.


Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a lânguida ternura

Tem-se cativo, e não me faz ditoso.


***

Bônus: https://www.youtube.com/watch?v=QlVXPWGxYwQ

A faixa "Quem vê cara" do álbum "Todo Mundo é Bom" do Coletivo Chama.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Improvisação, ego e superego

 O improviso requer o afrouxamento dos fios repressores. O superego modera a sua vigilância. Não que isso signifique o inchaço descontrolado do ego. Num improviso com um sistema, com uma situação, fazemos uma jogada e esperamos para ver como o sistema reage e então reagimos novamento num fluxo contínuo de feedbacks. Se o ego cresce demais o processo é interrompido e o jogo perde a graça. Por outro lado, se o superego controla demais, o sistema deixa de ser aberto relativamente imprevisível e também o jogo perde a graça.

Forma e função

Ao contrário do que podem sugerir certas interpretações da teoria da evolução (frequentemente subjacentes na frase: "tudo tem uma função" -- que minha mãe gosta muito de repetir), a natureza não opera com finalidades. É engano acreditar que o olho surgiu "para" ver ou que as suturas do crânio humano surgiram "para" suportar o crescimento da cabeça. Eles surgiram, apenas. É claro que não surgiram do nada e que, portanto, antes tinham outras funções. Mas a forma vem sempre antes da função.

Devir x sedimentação

Se por um lado estamos em devir, por outro estamos sujeitos à sedimentação: fixação de certas posições sociais, de traços psíquicos, a ação erosiva da história, que trunca o processo de heterogênese, as tendências particulares de cada corpo. É por isso que não basta nos declararmos em determinada posição. É preciso vivenciá-la num longo processo de sedimentação que nem sempre, ou raramente, depende apenas da nossa vontade.