A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.
Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,
e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,
e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.
{em: BRITTO, Paulo Henriques. Macau. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 79p.}
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
ENTRE SONHOS E...
Entre sonhos e pernilongos
Tenho um sono agitado
Suor escorre na noite escura
Quanto calor opaco
Não há um cobertor que cubra
Não há um guarda-chuva
Que proteja esse império
De mistério e saúvas
A estrela matutina
O açoite dos motores
Nada ilumina essa penumbra
O zumbido na orelha
A centelha na janela
Não penetra a pálpebra fechada
Tudo é febre e alumbramento
Limbo e teofania
O corpo inerte não denuncia
A polução que dentro
Dançam deuses, orixás e ninfas
Térmitas, fosfenos, seios
Pisoteando as pupilas
Que orbitam no avesso
Último país fértil
Contra a vigília estéril
Não me acorde mãe
Não me acorde, ó mãe
Não me acorde ainda
Não quero cruzar as fronteiras dessa hipnose
Espírito enfim liberto
Dos grilhões do corpo
Não me acorde mãe
Não me acorde, ó mãe
Não me acorde ainda
Aqui realizo a utopia de minha gnose
Quando chega o inevitável
Desvelar das cortinas
Tanta luminosidade
Dói
Dói
Dói
Tenho um sono agitado
Suor escorre na noite escura
Quanto calor opaco
Não há um cobertor que cubra
Não há um guarda-chuva
Que proteja esse império
De mistério e saúvas
A estrela matutina
O açoite dos motores
Nada ilumina essa penumbra
O zumbido na orelha
A centelha na janela
Não penetra a pálpebra fechada
Tudo é febre e alumbramento
Limbo e teofania
O corpo inerte não denuncia
A polução que dentro
Dançam deuses, orixás e ninfas
Térmitas, fosfenos, seios
Pisoteando as pupilas
Que orbitam no avesso
Último país fértil
Contra a vigília estéril
Não me acorde mãe
Não me acorde, ó mãe
Não me acorde ainda
Não quero cruzar as fronteiras dessa hipnose
Espírito enfim liberto
Dos grilhões do corpo
Não me acorde mãe
Não me acorde, ó mãe
Não me acorde ainda
Aqui realizo a utopia de minha gnose
Quando chega o inevitável
Desvelar das cortinas
Tanta luminosidade
Dói
Dói
Dói
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
SEIS FACES DE UM FAUNO
Diante dessa imagem fugidia, não importa se sonhada ou real, o fauno deseja:
1.
Construir sobre o vidro
uma torre incoerente de objetos empilhados
sabendo que amanhã ou depois tudo desabará.
2.
Deixar-se queimar.
Por que nada desaba
e o amor nasce como magma
para tornar-se rocha ígnea depois da erupção
(cicatrizes que a pele da paisagem ostenta como insígnias).
3.
Lutar contra a linguagem
para que, entre o silêncio e o gaguejar,
ela traduza o espasmo do gozo
o desejo sem falta
o cinema inventado no nervo óptico
tudo o que não foi feito para ser dito
que está no fundo do corpo
(mais animal que o animal)
e em algum lugar imaginado
(mais alado que a razão).
4.
Amassar o ar
Abraçar a água
Agarrar o fogo
Só a solidez da terra é impalpável.
As ninfas fluem:
Não há perpetuá-las
Nem fixar sua forma.
(Ah, se os dentes alcançassem o coração viçoso!
Se os pés de bode pisassem a secreta ilha
Cujo solo úmido nutre essas frutas altas que as garras não alcançam!
Não babaria a avena solitária).
5.
Cultivar a obsessão
Fabricar e acumular um museu de objetos inúteis
(Fios de cabelo, retratos, desenhos, sons, gotas d'água, folhas de mangueira, esse poema)
6.
Cair nas armadilhas da natureza:
ser híbrido é ser vítima do excesso.
Cravar as unhas no inevitável-impossível
Até sangrar
1.
Construir sobre o vidro
uma torre incoerente de objetos empilhados
sabendo que amanhã ou depois tudo desabará.
2.
Deixar-se queimar.
Por que nada desaba
e o amor nasce como magma
para tornar-se rocha ígnea depois da erupção
(cicatrizes que a pele da paisagem ostenta como insígnias).
3.
Lutar contra a linguagem
para que, entre o silêncio e o gaguejar,
ela traduza o espasmo do gozo
o desejo sem falta
o cinema inventado no nervo óptico
tudo o que não foi feito para ser dito
que está no fundo do corpo
(mais animal que o animal)
e em algum lugar imaginado
(mais alado que a razão).
4.
Amassar o ar
Abraçar a água
Agarrar o fogo
Só a solidez da terra é impalpável.
As ninfas fluem:
Não há perpetuá-las
Nem fixar sua forma.
(Ah, se os dentes alcançassem o coração viçoso!
Se os pés de bode pisassem a secreta ilha
Cujo solo úmido nutre essas frutas altas que as garras não alcançam!
Não babaria a avena solitária).
5.
Cultivar a obsessão
Fabricar e acumular um museu de objetos inúteis
(Fios de cabelo, retratos, desenhos, sons, gotas d'água, folhas de mangueira, esse poema)
6.
Cair nas armadilhas da natureza:
ser híbrido é ser vítima do excesso.
Cravar as unhas no inevitável-impossível
Até sangrar
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
DELEUZE E GUATTARI: "O ANTI-ÉDIPO" (fragmento)
Os revolucionários, os artistas e os videntes se contentam em ser objetivos, tão somente objetivos: sabem que o desejo abraça a vida com uma potência produtora e a reproduz de uma maneira tanto mais intensa quanto menos necessidade ele tem. Pior para aqueles que acreditam que isso é fácil de dizer, ou que é uma ideia livresca. “Das poucas leituras que tinha feito, tirei a conclusão de que os homens que mais mergulhavam na vida, que se moldavam a ela, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam poucos bens, se é que os tinham. Não mantinham ilusões em matéria de dever, de procriação voltada aos limitados fins da perpetuação da família ou da defesa do Estado… O mundo dos fantasmas é aquele que ainda não acabamos de conquistar. É um mundo do passado, não do futuro. Caminhar agarrado ao passado é arrastar consigo os grilhões do condenado.” [Henry Miller, Sexus]. O vivente vidente é Espinosa vestido com a roupa do revolucionário napolitano. Sabemos bem donde vem a falta – e o seu correlato subjetivo, o fantasma. A falta é arrumada, organizada, na produção social. É contraproduzida pela instância de antiprodução que se assenta sobre as forças produtivas e se apropria delas. Ela nunca é primeira: a produção nunca é organizada em função de uma falta anterior; a falta é que vem alojar-se, vacuolizar-se, propagar-se de acordo com a organização de uma produção prévia. É arte de uma classe dominante essa prática do vazio como economia de mercado: organizar a falta na abundância de produção, descarregar todo o desejo no grande medo de se ter falta, fazê-lo depender do objeto de uma produção real que se supõe exterior ao desejo (as exigências da racionalidade), enquanto a produção do desejo é vinculada ao fantasma (nada além do fantasma).
A POÇÃO QUE BEBI
a poção que bebi
tinha cheiro orgástico de frutas apodrecendo no chão me atraindo como abelha bêbada cheiro doce nauseante irresistível fermentação fervendo na ânfora
vida e morte amortemor metamorfoseando meu rosto barroco transfigurado de avidez sonhando alcançar o êxtase de santa teresa
vapor gerando hologramas úmidos imagens mornas dançando na fumaça rosa me encandeando com brilho escuro e misterioso
gosto ácido fogo me dilacerando no primeiro gole ansioso luz líquida me preenchendo de visões estroboscópicas se misturando com meu sangue vinho me entorpecendo se misturando com meu sangue água calma se misturando com meu sangue
água azul limpando as sedimentações do ser impelindo o devir
água
tinha cheiro orgástico de frutas apodrecendo no chão me atraindo como abelha bêbada cheiro doce nauseante irresistível fermentação fervendo na ânfora
vida e morte amortemor metamorfoseando meu rosto barroco transfigurado de avidez sonhando alcançar o êxtase de santa teresa
vapor gerando hologramas úmidos imagens mornas dançando na fumaça rosa me encandeando com brilho escuro e misterioso
gosto ácido fogo me dilacerando no primeiro gole ansioso luz líquida me preenchendo de visões estroboscópicas se misturando com meu sangue vinho me entorpecendo se misturando com meu sangue água calma se misturando com meu sangue
água azul limpando as sedimentações do ser impelindo o devir
água
domingo, 19 de janeiro de 2020
sábado, 18 de janeiro de 2020
ASSALTO
Acabo de me tornar um assaltante.
Hoje é sábado. Saí de cada às seis da tarde. No elevador, topei com uns conhecidos da faculdade. Gente boa. Estavam em clima de carnaval. Fui caminhando pelas ruas, vendo os bares, sorveterias, churrascarias e demais pontos de encontro da burguesia, todos lotados de gente sorridente. Os meninos-mendigos que haviam na porta de cada estabelecimento iam me parando e eu dizendo tô duro. Quando cheguei numa rua deserta vi um cara vindo na minha direção, um sujeito musculoso, "bem vestido", branco. Pela forma como ele parecia apreensivo e entortava a caminhada exatamente para o lado da rua onde eu estava, pensei que ele ia me assaltar. Mas ele acabou passando por mim normalmente. Foi aí que eu entendi o meu dever. Eu é que tinha que assaltá-lo. Assim que ele passou, eu virei rapidamente e coloquei o meu isqueiro na nuca dele, peguei o celular e a carteira que ele carregava no bolso de trás e disse calmamente: "continua andando e não olha pra trás". Pensei que ele se viraria e me derrubaria com um único soco ou que soltaria uma gargalhada, mas ele seguiu andando.
Hoje é sábado. Saí de cada às seis da tarde. No elevador, topei com uns conhecidos da faculdade. Gente boa. Estavam em clima de carnaval. Fui caminhando pelas ruas, vendo os bares, sorveterias, churrascarias e demais pontos de encontro da burguesia, todos lotados de gente sorridente. Os meninos-mendigos que haviam na porta de cada estabelecimento iam me parando e eu dizendo tô duro. Quando cheguei numa rua deserta vi um cara vindo na minha direção, um sujeito musculoso, "bem vestido", branco. Pela forma como ele parecia apreensivo e entortava a caminhada exatamente para o lado da rua onde eu estava, pensei que ele ia me assaltar. Mas ele acabou passando por mim normalmente. Foi aí que eu entendi o meu dever. Eu é que tinha que assaltá-lo. Assim que ele passou, eu virei rapidamente e coloquei o meu isqueiro na nuca dele, peguei o celular e a carteira que ele carregava no bolso de trás e disse calmamente: "continua andando e não olha pra trás". Pensei que ele se viraria e me derrubaria com um único soco ou que soltaria uma gargalhada, mas ele seguiu andando.
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