quarta-feira, 9 de março de 2022

Décio Pignatari sobre o kitsch e os novos ricos

 A consequência imediata do novo-riquismo é a tentativa de aumento de repertório, a aquisição de informações. Mas, aqui, também, a tradução de um repertório ou código mais amplo para um mais reduzido é inevitável num primeiro estágio, gerando uma aparência de repertório, cuja manifestação mais típica é o kitsch. O kitsch é uma aparência de repertório mais amplo (móveis imitando o colonial, por exemplo), uma vontade de repertório mais amplo que simbolize o novo status social. E como a base econômica corresponde realmente a um repertório maior, este pode, de fato, alargar-se (às vezes, na geração seguinte). Deste ponto de vista, a kitschização da cultura superior, levada a efeito pela massa afluente, pode ter caráter progressivo, podendo mesmo ser considerado como o processo de renovação das elites.


{em: Décio Pignatari. Informação, linguagem, comunicação. Ed. Cultrix: São Paulo, 1984.}

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Paisagem

Um avião ocasional
Marulho da avenida
E a branca cicatriz boia no azul
 
Incêndios no horizonte
Horizonte nenhum

Revoada, alta tensão
Arrulhos no telhado
E o farfalhar elétrico do quarto

Espelhos em silêncio
Silêncio sob o chão

Um diabo ri calado na televisão

Indo para o Norte

Me sinto um pouco solitário
Caminhando pra Bahia
Chego em Hokkaido

O sertão é o mundo inteiro
Mas nasci com essa sina:
Ser brasileiro

Minha terra tem palmeiras
Sussurrando em outras línguas
Tão estrangeiras

Gosto muito de fulana
Acredito na vacina
Não tenho grana

Mundo mundo vasto mundo
Se eu soubesse outra rima

sábado, 4 de dezembro de 2021

MÁRIO DE ANDRADE: ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase faá sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"-- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-- Um colar... -- Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

terça-feira, 2 de novembro de 2021

HU XUDONG (胡续冬): CAI UM RAIO (一个雷劈下来)

Cai um raio


Cai um raio e as vacas param de pastar.
Grupos de vacas se metem dentro dos cabos para comer eletricidade fértil
e você perde o acesso à internet. Você só pode comer
carne bovina elétrica e beber leite elétrico na noite triste.
 

Cai um raio e os carros começam
a dar à luz. Um carro-mulher dá à luz uma ninhada de carrinhos
que correm pelas estradas. Mas o carro-homem ainda fica em cima dela
fodendo e gemendo: vrum vrum, minha querida Fiat, vrum vrum.
 

Cai um raio e até os mosquitos morrem
com o tremor. Mas o meu companheiro de quarto, Rubén, ainda pode se meter
na garganta da tempestade para atender o telefone. Habla! Ele vem da
Espanha e quem chama é o pintor surdo Goya.
 

Cai um raio e o vizinho bêbado vê
a sua esposa se tornar uma guitarra nua, tocada,
faiscando pelo raio que penetra na janela.
Ele esmaga o pau do relâmpago e dança um samba sozinho.
 

Cai um raio e aqueles que se banham começam
a dar banho nos outros; aqueles que dormem começam
o sono dos outros; aqueles que agitam a festa toda a noite
começam a capturar os beija-flores nos relógios de pulso, uns dos outros.
 

Cai um raio e o Brasil não é mais o Brasil.
O Brasil se vende ao trovão. Os raios, um após o outro,
caem. Os Brasis são rachados, um após o outro.
Entre os Brasis você desapareceu.

 

一个雷劈下来


一个雷劈下来,牛就不吃草了,

成群的牛钻进了电缆里吃肥沃的电,

你就上不了网了,你就只能

在忧伤的夜里吃电牛肉、喝电牛奶了。


一个雷劈下来,汽车就开始

生孩子了,一辆母汽车生下了一窝小汽车

在马路上乱跑,但公汽车还趴在它身上

咻咻地搞:滴滴,我亲爱的菲亚特,滴滴。


一个雷劈下来,连蚊子都被

震死了,室友鲁文居然还能钻进

暴雨的喉咙里接电话。Habla!他来自

西班牙,和他通话的是聋子画家戈雅。

一个雷劈下来,喝醉了的邻居看见

他老婆变成了光溜溜的吉他,被

翻窗进来的闪电弹出了火花。

他砸烂了闪电的鸡巴,独自跳桑巴。


一个雷劈下来,洗澡的人就开始

洗别人的澡,睡觉的人就开始睡

别人的觉,那些开通宵派对的人

就开始互相捕杀手表里的蜂鸟。


一个雷劈下来,巴西就不是巴西了,

巴西就把巴西卖给雷了。一连串的雷

劈下来了,一连串的巴西都被劈开了。

你在一连串的巴西里面不见了。 

(tradução: Inez Zhou e Marcelo F. Lotufo)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A INTERNET DE DEZ ANOS ATRÁS

hoje me lembrei de algumas coisas que conheci pela internet quando era adolescente e que foram muito importantes para a minha formação: 

- a série de desenhos "o etnógrafo naif" de pierre lapalu. provavelmente foi através desse título que conheci a palavra etnografia e desperteu meu interesse pelas ciências sociais;

- o quadrinho experimental "promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo"de pedro franz. por coincidência (ou não), essa obra também citava conceitos de antropologia, se não me engano de clifford geertz. além disso, era um jeito de fazer quadrinhos muito diferente do tradicional. e foi através do pedro franz que acabei conhecendo quadrinistas como alberto breccia, berliac e aidan koch. agora ando afastado do mundo dos quadrinhos, mas tudo isso teve muita importância pra mim;

- ainda falando em quadrinhos: o site "ryotiras" do ricardo tokumoto. mais do que as tiras em si (que eram muito boas), este site foi uma espécie de guia da internet pra mim, porque em toda tira tinha um link, além de referências no título que eu ia logo pesquisar. e acabei conhecendo muita coisa assim.

- o site "trama virtual". era minha principal fonte de música nova. foi provavelmente onde eu conheci artistas e bandas como júpiter maçã, procura-se quem fez isso, thiago nassif, zeca viana e muitos outros que já esqueci.

- alguns blogues de escritoras e poetas como o da aline zouvi (que depois se tornou quadrinista) e o da juliana amato (inclusive fiz uma canção a partir do título do blogue dela: "medeia quer cachaça"). também o do antônio cícero ("acontecimentos"), um dos poucos que ainda continuam ativos.

- o ilustragrupo, lista de e-mail que reunia ilustradores do brasil inteiro e tinha muitas dicas sobre o mercado. provavelmente foi um dos motivos de eu ter resolvido não seguir uma carreira em ilustração, mas aprendi muito sobre a vida de freelancer.

- o blogue o barco bêbado, que era um blogue de cultura, onde li poemas dos irmãos campos, de rimbaud, marcelo dolabela, descobri filmes, músicas, baixei uma coleção de fotos tiradas em woodstock e muitas outras coisas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Medeia voa, não vai: éden