a poção que bebi
tinha cheiro orgástico de frutas apodrecendo no chão me atraindo como abelha bêbada cheiro doce nauseante irresistível fermentação fervendo na ânfora
vida e morte amortemor metamorfoseando meu rosto barroco transfigurado de avidez sonhando alcançar o êxtase de santa teresa
vapor gerando hologramas úmidos imagens mornas dançando na fumaça rosa me encandeando com brilho escuro e misterioso
gosto ácido fogo me dilacerando no primeiro gole ansioso luz líquida me preenchendo de visões estroboscópicas se misturando com meu sangue vinho me entorpecendo se misturando com meu sangue água calma se misturando com meu sangue
água azul limpando as sedimentações do ser impelindo o devir
água
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
sábado, 18 de janeiro de 2020
ASSALTO
Acabo de me tornar um assaltante.
Hoje é sábado. Saí de cada às seis da tarde. No elevador, topei com uns conhecidos da faculdade. Gente boa. Estavam em clima de carnaval. Fui caminhando pelas ruas, vendo os bares, sorveterias, churrascarias e demais pontos de encontro da burguesia, todos lotados de gente sorridente. Os meninos-mendigos que haviam na porta de cada estabelecimento iam me parando e eu dizendo tô duro. Quando cheguei numa rua deserta vi um cara vindo na minha direção, um sujeito musculoso, "bem vestido", branco. Pela forma como ele parecia apreensivo e entortava a caminhada exatamente para o lado da rua onde eu estava, pensei que ele ia me assaltar. Mas ele acabou passando por mim normalmente. Foi aí que eu entendi o meu dever. Eu é que tinha que assaltá-lo. Assim que ele passou, eu virei rapidamente e coloquei o meu isqueiro na nuca dele, peguei o celular e a carteira que ele carregava no bolso de trás e disse calmamente: "continua andando e não olha pra trás". Pensei que ele se viraria e me derrubaria com um único soco ou que soltaria uma gargalhada, mas ele seguiu andando.
Hoje é sábado. Saí de cada às seis da tarde. No elevador, topei com uns conhecidos da faculdade. Gente boa. Estavam em clima de carnaval. Fui caminhando pelas ruas, vendo os bares, sorveterias, churrascarias e demais pontos de encontro da burguesia, todos lotados de gente sorridente. Os meninos-mendigos que haviam na porta de cada estabelecimento iam me parando e eu dizendo tô duro. Quando cheguei numa rua deserta vi um cara vindo na minha direção, um sujeito musculoso, "bem vestido", branco. Pela forma como ele parecia apreensivo e entortava a caminhada exatamente para o lado da rua onde eu estava, pensei que ele ia me assaltar. Mas ele acabou passando por mim normalmente. Foi aí que eu entendi o meu dever. Eu é que tinha que assaltá-lo. Assim que ele passou, eu virei rapidamente e coloquei o meu isqueiro na nuca dele, peguei o celular e a carteira que ele carregava no bolso de trás e disse calmamente: "continua andando e não olha pra trás". Pensei que ele se viraria e me derrubaria com um único soco ou que soltaria uma gargalhada, mas ele seguiu andando.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
LUZES
Luzes
Enfim perfuram o
dossel
E invadirão a
escura selva
Que turvava a visão
Das três raças
tristes
(E quantas eram as
três?)
E se revelaria a cor
do céu
Onde
Reinara até então
o horror, o horror
De um corpo nu
Desnutrido e mau
Luzes
Luzes elétricas
Expurgavam os
fantasmas informes
E ofuscarão os seus
nomes inscritos na noite eterna
De
taxonomias obscuras
(E quantas serão as
três?)
Vozes
Instilavam sabedoria
Fumegam abrindo
estradas
No nada
No nada
Sufocarão canções
Cruzes
Obeliscos
Falos
Falos
Emergirão com a carne morta
dos jequitibás
E o véu de ilusão
das matas se rasgava
E a única verdade
seja vista
E compreendida
Luzes
Luzes
Irradiam de espelhos
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
Yedi Kule (Música tradicional Sefardi)
Yedi Kule veras empaseando,
de altas murallas saradeado.
En la prision esto' por ti atado,
en el budrum lloro desmasaldo.
Me quitaron la luz, esto' sufriendo
y la muerte venir, ninya, esto' viendo.
Ninya me vo a muerir creo de hambre
no puedo mas sofrir, soy un cadavre.
Por el yedi kule ven paseando,
mira en que hali yo esto' pasando.
Fostanico preto kale hacerte
y a la quelhila echar aceite.
Yo esto' en la prision, tu en las flores,
sufro de corason, kero que llores.
Ninya me vo a muerir creo de hambre
no puedo mas sofrir, soy un cadavre.
de altas murallas saradeado.
En la prision esto' por ti atado,
en el budrum lloro desmasaldo.
Me quitaron la luz, esto' sufriendo
y la muerte venir, ninya, esto' viendo.
Ninya me vo a muerir creo de hambre
no puedo mas sofrir, soy un cadavre.
Por el yedi kule ven paseando,
mira en que hali yo esto' pasando.
Fostanico preto kale hacerte
y a la quelhila echar aceite.
sufro de corason, kero que llores.
Ninya me vo a muerir creo de hambre
no puedo mas sofrir, soy un cadavre.
SLIMANE AZEM: "Idhehdred w aggur" / "Est apparu le croissant de lune"
Est apparu le croissant de lune
Suivi de l'étoile
Il rayonne et illumine
De clarté
Eclairant contrées et océans
Montagnes et déserts
Que d'épreuves par lui endurées
Voilé qu'il fut par les brumes
Qui l'étouffaient
Rancunières
Averties du sens du croissnt de lune
Elles refusaient de nous le montrer
Le voici émergé enfin
Eblouissant plus encore
Son souvenir est rehaussé par la lumière
Que d'années il a passées en exil
Plueré par tous ses amis
La pluie même en a porté de deuil
Il souffrit d'un hiver froid
Dans un ciel tourmneté
Par averses éclairs et tonnerre
C'est aprés mille peines
Qu'il retrouva sa voix
Rayonnant comme autrefois
Le voici en des jours heureux
Dans un ciel limpide
Sa lumière nous est offerte
Il est ceint de toutes le étoiles
Semées avec harmonie
Et joyeuses comme ses propes enfants
L'entourant de tous côtés
Et lui offrant leur clarté
Quelles belles oevres que celles de Dieu!
Autour de lui les nuages sont dissipés
Et il émerge de la nuit
Pour lui aussi se réjouir
Il éclaire tout le drapeau
En nous saluant
Il scintille comme une lampe à huile
Dieu fasse qu'il évolue sans encombre
Afin que, comme est notre espoir,
Nous partagions toute sa joie
{in:
NACIB, Youssef. Anthologie de la poésie kabyle: bilingue. Paris: Publisud, c1994. 523 p.}
Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=wRqp4T4eIQc
Suivi de l'étoile
Il rayonne et illumine
De clarté
Eclairant contrées et océans
Montagnes et déserts
Que d'épreuves par lui endurées
Voilé qu'il fut par les brumes
Qui l'étouffaient
Rancunières
Averties du sens du croissnt de lune
Elles refusaient de nous le montrer
Le voici émergé enfin
Eblouissant plus encore
Son souvenir est rehaussé par la lumière
Que d'années il a passées en exil
Plueré par tous ses amis
La pluie même en a porté de deuil
Il souffrit d'un hiver froid
Dans un ciel tourmneté
Par averses éclairs et tonnerre
C'est aprés mille peines
Qu'il retrouva sa voix
Rayonnant comme autrefois
Le voici en des jours heureux
Dans un ciel limpide
Sa lumière nous est offerte
Il est ceint de toutes le étoiles
Semées avec harmonie
Et joyeuses comme ses propes enfants
L'entourant de tous côtés
Et lui offrant leur clarté
Quelles belles oevres que celles de Dieu!
Autour de lui les nuages sont dissipés
Et il émerge de la nuit
Pour lui aussi se réjouir
Il éclaire tout le drapeau
En nous saluant
Il scintille comme une lampe à huile
Dieu fasse qu'il évolue sans encombre
Afin que, comme est notre espoir,
Nous partagions toute sa joie
{in:
NACIB, Youssef. Anthologie de la poésie kabyle: bilingue. Paris: Publisud, c1994. 523 p.}
Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=wRqp4T4eIQc
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
LUIGI RUSSOLO: "A arte dos ruídos" (fragmento)
Atravessemos uma grande capital moderna, com os ouvidos mais atentos que os olhos, e degustaremos então o distinguir dos redemoinhos de água, de ar ou de gás nos tubos metálicos, o murmúrio dos motores que resfolegam e pulsam com uma indiscutível animalidade, o palpitar das válvulas, o vai e vem dos êmbolos, os rangidos das serras mecânicas, o andar dos trens por sobre os trilhos, o estalar dos chicotes, o gorjear das cortinas e das bandeiras. Divertir-nos-emos a orquestrar ideal e conjuntamente o estampido dos portões das lojas, as portas batidas, o sussurro e o ruído de passos das multidões, os diversos alaridos das estações, das ferrarias, das fiações, das tipografias, das centrais elétricas e das ferrovias subterrâneas. E nem é preciso que nos esqueçamos dos ruídos novíssimos da guerra moderna.{LUIGI RUSSOLO. A arte dos ruídos. Em:MENEZES, Flo. Música eletroacústica: história e estéticas. São Paulo: EdUSP, 1996}
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