quarta-feira, 14 de março de 2018

O GATO PRETO (EDGAR ALLAN POE) - momento acusmático

"O gato preto", conto de Edgar Allan Poe, possui um interessante momento acusmático no clímax da história:

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração. Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

terça-feira, 13 de março de 2018

Jack + Pulseaudio

primeiro passo, instalar o pulseaudio-module-jack

sudo apt install pulseaudio-module-jack

segundo passo. ir em /etc/pulse/default.pa
e trocar

load-module module-jackdbus-detect channels=2
 
por:
 
load-module module-jackdbus-detect channels=2 connect=0 

 terceiro: criar os seguintes scripts no qjackctl:

execute script on Startup: pulseaudio -k
execute script after Startup: pulseaudio --start; pactl load-module module-jack-sink channels=2; pactl load-module module-jack-source channels=2; pacmd set-default-sink jack_out
execute script on Shutdown: pulseaudio -k
execute scritp after Shutdown: killall jackd; pulseaudio --start

Referências

1. http://flavioschiavoni.blogspot.com.br/2010/05/jack-e-pulse.html
2. http://linuxmao.org/tiki-index.php?page=pulseaudio%20vers%20jack&structure=Accueil+Tutos&redirectpage=pulseaudio%20vers%20jack
3. https://rodrigocarvalho.blog.br/configurando-pulseaudio-com-jack-no-ubuntu-10-04/
4. http://jackaudio.org/faq/pulseaudio_and_jack.html


terça-feira, 6 de março de 2018

SHI KING (LIVRO DAS ODES) - ODE 20

un lamento d'amore senza amore

ameixas maduras
só sete
na rama curva

amado amigo
é hora
é hora

ameixas vermelhas
só sete
na rama esbelta

amigo amado
agora
agora

ameixa nenhuma
na rama nua

amado amado
o tempo passado
amigo amigo
o tempo perdido

[Escritos sobre Jade: poesia clássica chinesa. Trad. Haroldo de Campos. Org. Trajano Vieira]

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A BERINGELA - IBN SÂRA

A BERINGELA

redonda forma
agradável gosto.
da água fresca dos jardins
lhe vem o mosto.

cingida a carapaça
ao pé, que a nutre,
é coração rubro de cordeiro
prisioneiro das garras de um abutre.

*** 

os viajantes da noite murmuram o teu nome
e as areias do deserto derramam sobre quem te pisa
o perfume do almíscar.
e da formosura da invocação sabemos da beleza do invocado
como pelo verdor das margens se pressente o rio.

***
UM AMOR CASTO

quantas vezes a amada me veio ver!
negra era a noite como o seu cabelo.
junto a mim ficou até ao romper da alva
refulgente como o seu rosto claro.

ficou à minha mesa.
e nosso puro amor
fez-nos companhia.

o vinho turbava a minha alma
tal como as pupilas dos seus olhos.
mas permaneci casto,
homem senhor da sua força:
só tem virtude verdadeira
quem a si se vence no vigor.

***
honram, por ignorância, o mundo
os homens nesta desprezível vida:
por ele lutam como cães que a fundo
se atiram sobre caça ferida.

DOIS POEMAS DE IBN AS-SÎD

vive para sempre o homem de saber
ainda quando, após a morte,
na terra, em pó seu corpo se volver...
o néscio, esse, é sempre um morto
que mesmo se segue caminhando
muito embora aparentando vida
não passa de corpo vegetando.

***

é um cavalo negro
da raça dos puros garanhões.
a noite é a sua veste.
a aurora pôs marcas brancas
em seus cascos.

atónita da sua beleza
a água gelou-lhe sobre o pêlo:
não fora o ardor do seu galope,
e não teria escorrido.

o crescente que marca o fim do jejum
lhe brilha no semblante
quando os olhos se reviram de desejo;
dir-se-ia que tempestades o arrastam
quando o peitoral e a garupa
se mostram banhados de suor.

POEMA DE IBN AL-MURAHHAL

um áspero deserto me encerra o peito
e nele sou pena e palpitar.
sob a veste da noite por mim arde, brasa
e luz, formosa a túnica do amanhecer.
dou-me às trevas: cálido vento
entre pestanas de nuvens passando.
a noite, grandes e negras pupilas,
cerra-me os olhos docemente
e sorri-me a aurora com soberbos dentes.

UM POEMA DE IBN MUQÂNÂ

ó homem de Alcabideche
que não te faltem sementes.
que o labor do teu moinho,
cuja vela o vento mexe,
possa ter o remoinho
que dispensa as correntes.
em ano bom só terás
não mais que vinte medidas
pois que as restantes verás
pelos javalis comidas.
é terra de pouca valia,
como eu próprio, agora surdo.
deixei corte luzidia,
mais o seu luxo absurdo.
em Alcabideche estou
no campo silvas cortando
com a podoa trabalhando.
se alguém te perguntar
se do teu trabalho gostas
tu responde-lhe que sim:
quem ama ser livre assim
de bom carácter dá mostras.
bastam-me só o amor
e dádivas que recolhi
deixei tudo sem rancor
e em tempo de primavera
a este chão me acolhi.