domingo, 27 de setembro de 2015

Há pessoas que apenas concebem a vida como ficção. Tire delas a possibilidade de imaginar, isto é, de imaginar a cada a ação que praticam e não apenas na fruição de um filme ou livro, e você as terá matado.

sábado, 26 de setembro de 2015

Por que desperdiçar a madrugada com o sono? O último refúgio dos que amam a solidão.

sábado, 19 de setembro de 2015

ROBERT JOURDAIN: "MÚSICA, CÉREBRO E ÊXTASE"

"Quando as promessas (previsões) da música são cumpridas, experimentamos prazer; quando são traídas, sentimos ansiedade, ou coisa ainda pior. Quando uma composição hábil desperta previsões fortes, de longo alcance, intenso prazer acompanha sua realização; em comparação, as fracas antecipações geradas por uma composição pobre dificilmente chegam a nos comover. 
Mas o prazer mais profundo da música vem com os desvios do esperado: dissonâncias, sincopações, torceduras no contorno melódico, repentinos estrondos e silêncios. Não é contraditório? Não , se os desvios servem para estabelecer uma resolução ainda mais forte. A música banal faz surgirem previsões banais e, então, imediatamente as satisfaz, com resoluções óbvias. Há prazer a ser obtido, mas é o prazer do pãozinho, não do caviar. Música bem escrita não se apressa nem um pouco em satisfazer previsões. Ela arrelia, instigando, repetidamente, uma previsão e sugerindo sua satisfação, algumas vezes precipitando-se em direção a uma resolução, mas recuando, depois, com uma falsa cadência. Quando afinal, ela se entrega, são postos em ação, ao mesmo tempo, todos os recursos da harmonia e do ritmo, do timbre e da dinâmica. A arte de escrever esse tipo de música não consiste tanto em elaborar resoluções, mas sim em incrementar as previsões até níveis extraordinários. Se o processo nos soa tão parecido com o de uma receita para fazer bem o amor, mas se trata de fazer boa música, é porque o sistema nervoso funciona da mesma maneira em todas as suas esferas. O mesmo mecanismo básico se aplica a todos os prazeres, artísticos ou não, pelo simples motivo de que esse mecanismo é prazer."

Por que não me explicaram isso nesses termos antes?

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

FERNANDO PESSOA: FAUSTO (dois fragmentos)

VI

Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento -
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
São sombras de mãos, cujos gestos são
A ilusão madre desta ilusão.

XXII

Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma [...]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto

Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo

O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais,
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando [...] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo...


sexta-feira, 3 de abril de 2015

A questão que permanece, inexorável, é a da existência. A política, o sexo, os mendigos, o medo de levar uma facada, tudo isso se torna secundário diante desta que é a mais secundária das questões. Quem sabe eu enxergasse a coisa toda de outro modo se minha única preocupação fosse conseguir sobreviver? Quem sabe eu desse mais valor à existência se tivesse que lutar por ela? Falando assim é rídiculo. Não sou nenhum Fernando Pessoa pra expressar com beleza a profundidade desses problemas. Aliás, estive num concerto de música contemporânea e também achei ridículo - não pela música, mas por todo o ritual de apreciação de um concerto: os músicos entram, são aplaudidos, tocam, se curvam. Num concerto comum isso já é engraçado, mas num concerto com poucas pessoas o ridículo desse ritual se torna patente.

A existência e seus símbolos. A religião, por exemplo, nunca adentrou profundamente na metafísica da linguagem ou da cultura. Heidegger e outros entenderam que o problema da existência é, em última instância, o problema da linguagem e este, por sua vez, é o problema da cultura. Não houvesse cultura não haveria símbolos. E toda a dificuldade da existência está nos símbolos.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Um cadáver
é o que há de mais sólido.
Ninguém dirá a um esquife
que hoje ele está diferente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Infância

ao construir uma casa de 
três andares
não se demole o primeiro
ao terminar o segundo
nem se demole o segundo
ao terminar o terceiro
pelo contrário
o andar de cima só se sustenta
se os outros permanecem firmes
e atuais

envelhecer
é construir esta casa