terça-feira, 29 de março de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

               — O problema, compadre meu - ele me disse - é que eles são felizes. Eles são felizes do jeito que são. Eu sou dos que defendem a infelicidade. Não suporto viver satisfeito. É só na beira de um suicídio que consigo mensurar a vida.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Tipos 1 - Colecionador de cigarros

Perdoe-me a linguagem literária, mas não tenho hábito de falar como uma pessoa comum, quero dizer, no linguajar oral. Perdoe-me também por ser um homem tão estranho, alguns diriam até excêntrico. Creio que hoje há outros como eu nessa capital. Malgrado esses defeitos, me considero um homem inteligente, diria até, um pouco mais que a maioria. Mas nada disso tem importância. Isto também é um defeito meu: tenho um acentuado gosto por coisas insignificantes. Mas, se me permite devanear um pouco, nada no mundo tem importância alguma, logo, esse acentuado gosto por coisas desimportantes não é defeito só meu.

Sou um homem de 28 anos, vivendo num apartamento alugado em São Paulo. Estou mentindo: na verdade, tenho 27 anos e moro no Brooklin. Pouco mudaria se eu tivesse 30 e morasse num bairro de Petersburgo. Sou um homem insignificante e nunca serei ou quererei ser ou poderei querer ser mais do que isso. (O mal dos homens é pensar que são mais que isso). Eu agora daria um viva a Fernando Pessoa, se ele fosse alguma coisa.

Eu não fumo, mas tenho uma curiosa mania: comprar cigarros para guardá-los. Meu apartamento tem muitos cigarros. Conheço as marcas, os aromas e toda a diversidade dos cigarros. Há cigarros de filtro branco, de filtro bege. Há os com aroma de cravo, de menta, de cereja... E, igualmente, eu conheço os consumidores de cigarro. Analiso seu comportamento como uma criança curiosa analisa um formigueiro. Posso reconhecê-los pelos dentes, pelos dedos (o indicador e o médio do fumante são acostumados à posição típica de se segurar o cigarro entre eles e esse é um gesto que, aliás, guarda algo de profundo ou de erótico, mas não me ocuparei com isso agora), pelos olhos, pelo cheiro. Conheço as peculiaridades da sua voz... E você ri do que digo! Afirma que tudo não passa de tolices! E eu também rio, meu caro. Até agora eu só fui capaz de dizer tolices. Contudo, não posso dizer que eu não tenha dito alguma verdade, ainda que tola. Sim, pois não vejo nenhuma necessidade de que haja inteligência na Verdade. Aliás, a Verdade nunca é inteligente.

O fato é que, já há algum tempo, tenho me sentido um tanto perturbado. Lembrei-me esses dias de um acontecimento quase insignificante da adolescência. Certa vez, uma colega de escola pediu para que eu carregasse sua mochila até a sala de aula. Embora eu estivesse carregando já um considerável peso, levei a mochila — devo explicar que ela não passava por absolutamente nenhuma situação extracomum. Bem... é esse o acontecimento. E, por estranho que pareça, ele tem me perturbado. Me sinto ofendido por ter sido o alvo dessa vingança. Ora, pois não vejo senão uma vingança naquele ato. Uma vingança! Ou pelo menos uma perversão. Você não acha que usar seu poder sobre outra pessoa é perversão? (E que poder ela tinha sobre mim? Teoricamente, nenhum, porém eu tinha uma personalidade débil e isso tornava-me um subordinado de qualquer vontade mais forte que a minha). Mas, me diga, não estamos sendo perversos quase o tempo todo? Repito: nada do que digo tem importância alguma e já não tenho paciência para dizer mais nada.

Paciência. Nela jaz a virtude do viver.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O tio

                  — Tio, por que está com os pulsos enfaixados? — Era um jantar em família: os dois irmãos, um adolescente, outro pequeno, seus pais e o tio.
                  — Não incomode seu tio, filho — repreendeu a mãe, perturbada com a situação do irmão, que acabara de receber alta no hospital depois de uma tentativa de suicídio.
                 O jantar prosseguiu em silêncio embaraçoso. 


                 No outro dia, encontraram o corpo pendurado pela gravata.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A canoa

Como eu abrisse os olhos e estivesse numa canoa. Era a primeira vez que eu me via no meio de um rio. Um rio escuro, profundo e largo. Não sabia nadar. A canoa se afastava da margem. Tive medo. Pensei em pular. Mas não sabia nadar. Não fiz nada. Aliás, tentei remar com os braços e era a mesma coisa que nada. Fui me afastando cada vez mais da margem. Quando vi que era inútil tentar remar, parei e fiquei olhando. Pensei. Não pude fazer nada mais que pensar, planejar, desejar. E a canoa ia embora. O tempo todo eu via a margem ao longe. Se eu pulasse e nadasse, seria possível chegar lá. Se eu nadasse, mas eu não sabia nadar. Às vezes, tinha esperança de que a correnteza me levasse pra margem. Não levava. Esperei. Um dia, dois. Uma semana. Um mês. Cem anos. Esperei que algo acontecesse. Que alguém me ajudasse. Esperei a vida inteira sentado na canoa.

Até que senti a velhice me matando e, antes da morte, resolvi pular no rio. Meus pés alcançaram o fundo, mas era tarde demais para caminhar até a margem.

sábado, 16 de outubro de 2010

Conversa fiada

Pequena homenagem à Jim Jarmusch


— Hoje vi um mendigo jogando palavras cruzadas. 
— ...
— Dei uma palavra de esmola pra ele. Hah! hah! Entendeu?
— Não é engraçado.
— Hum... esse café está amargo. Me passa o açúcar, por favor.
— ...
— Você voltou a fumar?
— Sim.
— Isso não te faz bem...
— O que não me faz bem é gente enchendo o saco.
— Essa embalagem é a do câncer de pulmão?! Me dá?
— O maço ainda está cheio. Eu não vou acabar com ele agora.
— É. Mas eu te ajudo a acabar. Me dá um cigarro.
— Não era você que estava falando agora que fumar faz mal?
— Só disse que faz mal. Não disse que não fumo.
— Mas pra que você quer a embalagem?
— Eu coleciono. Olha isso aqui.
— Você tem todas as embalagens dessa campanha anti-tabagista?
— Falta essa do câncer de pulmão...
— Nossa! Elas são muito engraçadas!: "Fumar causa Horror!". Isso é hilário.
— É. Hah! hah! hah!
— Me passa a garrafa de café aí. Olha essa da menininha! Hah! hah! hah!
Mas você não acha engraçado, um mendigo jogando palavras cruzadas?
— É. É engraçado. Mas seu trocadilho não foi.
— Eu sei. Nunca fui mesmo engraçado. Nem sei por que rio das minhas piadas. O curioso é que quando tento ser sério acabo sendo meio ridículo.
— ...
— Por que um mendigo jogaria palavras cruzadas?
— Ah! Sei lá! Ele não deve ter nada pra fazer mesmo.
— Tem gente que quer ser mendigo por que quer.
— Isso sim é curioso.
— Mas se esse mendigo jogava palavras cruzadas, ele deve ter votado também.
— ...
— Você votou em quem?
— Não votei.
— Não votou?!
— Não.
— Mas isso é...
— Democracia: direito a não votar.
— Mas e seu papel como cidadão?
— Cara, você acha mesmo que muda alguma coisa de um candidato pra outro?
— ...
— Na verdade, até muda. Um pode ser melhor administrador, outro pode ser melhor em outra coisa. Mas, não importa como seja, não vai mudar nada na minha vida.
— Então você não depende do transporte público? Então você vai ficar pagando escola particular pra ter um ensino de qualidade?
— Mesmo que melhore a situação de tudo nessa cidade, a diferença que fará em minha vida e na vida de todo mundo será muito pequena. Primeiro, por que agente se acostuma com tudo e, além disso, não há metrô, não há escola, não há hospital que funcione por muito tempo com tantos idiotas pra destruir. E não há político que consiga resolver certos problemas.
— ...
— Acho mais efetivo agir individualmente. Ir fazendo uma mudança gradual no modo de pensar das pessoas dos meios que frequentamos.
— Põe um pouco mais de café na minha xícara, por favor.
— Os candidatos podem até interessar a algumas pessoas. Por exemplo, funcionários públicos.
— Não teve graça também. E essa sua teoria está muito furada.
— Foda-se. Aposto que aquele seu mendigo concorda comigo.
— Vai ver que ele exercita o cérebro com palavras cruzadas e com essas teorias.
— ...
— ...
— Outro cigarro?
— Sim, por favor. Café me dá uma vontade de fumar. 
— Em mim também.
— Prefiro o de menta do que esse de canela.
— ...
— Já experimentou aquele cigarro de cereja?
— Não.
— Deve ser muito enjoativo.
— É.
— ...
— ...
— Acho que tenho que ir.
— Sim, eu também tenho que ir.
— Tchau, até a próxima...
— Tchau.