quinta-feira, 24 de abril de 2025

Música de la Tierra

sol inventa sul
antes do sul os rios eram corpos vivos de sucuris
nau invade sul
dois oceanos-línguas roeram os corpos das sucuris

dos rios sufocados pelo sal
nascemos: duas mãos irmãs

sul é cicatriz

terere pa paiara   papapo  pororo  porororê 
do sal do sul surgiu zapata che guevara marighella o sol
sol universal
o sal sempre igual mas o doce dos rios sempre outro sol

nascemos dos rios salgados
duas mãos irmãs em dívida com a terra

sul ainda é sul
um rio ainda flui de tierra del fuego a sonora
mas se o céu cair
rio ou mar cor de gente cores de terras adoçando o mar

 

mais fundos que o mar os rios doce-fundos são sucuris


***

sol inventa sul
pele de rio era
o corpo ondulante
da sucuri

nau invade sul
leviatãs e línguas
lixando o rastro
da sucuri

duas mãos irmãs nascemos
do afã do mar e seu sal

para estrangular as línguas doces sucuris

sul é cicatriz
o sal universal mata
o doce profundo
da sucuris

sol colonial
zapata marigella
guevara pororo
levante sul

terça-feira, 10 de setembro de 2024

A FÁBRICA DE EXISTENCIALISTAS E A GUERRILHA IMAGINISTA

A fábrica insiste em massacrar nossos ouvidos com o ruído estático e incansável que invade o nosso sono e faz do movimento rápido dos olhos uma engrenagem psíquica na linha de montagem de existencialistas.

A pálpebra pisca embora as imagens não passem pela retina, criando biombos entre o ego e o mundo diretamente nos escombros de um cérebro mutilado por bombas de sinais estacionários.

A guerrilha imaginista hackeia as imagens zerodimensionais com hiperimagens fantásticas pra mostrar que todo realismo é ilusório e somente o imaginado é real que tecnocratas se dedicam ao apagamento ontológico do ar respirável.
 

 Flutuamos na estrutura instável.

Pode-se abrir um buraco numa parede. Se ela desabar, o buraco será uma lacuna. Se ela não desabar, o buraco será uma janela, quiçá uma porta. Quem me disse isso foi uma velha cozinheira. Momentos depois cutucou o nariz e se desfez do conteúdo esfregando o indicador no polegar, com uma naturalidade incrível.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

SHAKESPEARE: My Mistress' eyes

My Mistress' eyes are nothing like the Sun;
Coral is far more red, than her lips' red ;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head:
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks.
And in some perfumes is there more delight,
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know,
That Music hath a far more pleasing sound:
I grant I never saw a goddess go;
My Mistress, when she walks, treads on the ground.
    And yet, by heaven I think my love as rare,
    As any she beli'd with false compare.

Os olhos de minha senhora não são nada como o Sol;
O Coral é bem mais vermelho que seus lábios vermelhos;
Se a neve é branca, seus seios morenos;
Se os cabelos são fios, negros fios crescem de sua cabeça.
Já vi flores de damasco, vermelho e brancas
Mas tais rosas não vejo em suas bochechas.
E em alguns perfumes há mais deleite
Do que no hálito de minha amada.
Eu adoro ouvi-la falar, mas bem sei,
Que Música é o mais agradável som;
Admito: nunca vi uma deusa andar
Minha amada quando anda pisa o chão.
E bem, pelo céu, eu acho meu amor tão raro
Quanto qualquer que ela falsa comparações

Os olhos de minha amada não são como o sol;
Seus lábios são menos rubros que o coral;
Se a neve é branca, seus seios são escuros;
Se os cabelos são de ouro, negros fios cobrem-lhe a cabeça.
Já vi rosas adamascadas, vermelhas e brancas
Mas jamais vi essas cores em seu rosto;
E alguns perfumes me dão mais prazer
Do que o hálito da minha amada.
Amo-a quando ela fala, embora eu bem saiba
Que a música tenha um som muito mais agradável.
Confesso nunca ter visto uma deusa passar –
Minha senhora, quando caminha, pisa no chão
Mesmo assim, eu juro, minha amada é tão rara
Que torna falsa toda e qualquer comparação

Às vezes ela acorda com remela.
Se aperto suas pernas vejo estrias
(E olhe que ela é magra e muito bela).
Quando o dia está quente, ela transpira
Mas eu a abraço assim mesmo; e gosto,
Como gosto se ela não se depila
Vejo defeitos na tez do seu rosto
— Sem maquiagem e ainda bonita.
Adoro seus seios tão delicados,
Pequenos e perfeitos, sem exageros,
E o sabor sem doce, mas mais amado
Do que amargo, do viço do seu sexo.

***

Quando faz muito calor
E o suor toma o lugar do perfume
Gosto do cheiro dela assim
Não é rosa nem jasmim
É amargo, não obstante é suave
E então vamos para o banho

***
DOM QUIXOTE

— "Foi o caso, conforme se crê, que, num lugar perto do seu, havia certa moça lavradora de muito bom parecer, de quem ele em tempos andara enamorado, ainda que (segundo se entende) ela nunca o soube, nem de tal desconfiou. Chamava-se Aldonça Lourenço; a esta é que a ele pareceu bem dar o título de senhora dos seus pensamentos; e buscando-lhe nome que não desdissesse muito do que ela tinha, e ao mesmo tempo desse seus ares de princesa e grã-senhora, veio a chamá-la Dulcinéia del Toboso, por ser Toboso a aldeia da sua naturalidade; nome este (em seu entender) músico, peregrino, e significativo, como todos os mais que a si e às suas coisas já havia posto." (final do Capítulo 1)

— "ó, das belas belíssima Dulcineia del Tolboso"

— "Esta Dulcinéia del Toboso, tantas vezes mencionada na presente crônica, dizem que para a salga dos porcos era a primeira mão de toda a Mancha."

"— Visto isso, sendo essencial que todo o cavaleiro há-de ser por força enamorado — disse o outro — também o é por ser da profissão; e a não ser que Vossa Mercê capriche em ser tão de segredo como D. Galaor, com o maior empenho lhe rogo, em nome de toda a companhia, e no meu próprio, nos diga o nome, pátria, qualidade, e formosura da sua dama; ditosa se julgaria ela de que o mundo todo soubera que é amada e servida por um tal cavaleiro como Vossa Mercê parece.

Aqui soltou D. Quixote um grande suspiro, e disse;

— Não poderei afirmar se a minha doce inimiga gosta, ou não, de que o mundo saiba que eu a sirvo. Só posso dizer, em resposta ao que tão respeitosamente se me pede, que o seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há-de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elísios; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos; sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjecturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las."

"— Ó Dulcinéia del Toboso, dia da minha noite, glória da minha pena, norte dos meus caminhos, estrela da minha ventura (assim o céu ta depare favorável em tudo que lhe pedires!) considera, te peço, o lugar e o estado a que a tua ausência me conduziu, e correspondas propícia ao que deves à minha fé!"

"— Essa ordem no mesmo livrinho a assinarei, que, em minha sobrinha a vendo, nenhum reparo porá em a cumprir; e pelo que respeita à carta de amores, porás, em vez de assinatura: Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste Figura. E o ir a coisa escrita por mão de outrem pouco importa, porque, se bem me lembra, a Dulcinéia não sabe escrever nem ler, nem em toda a sua vida viu nunca letra nem carta minha, porque os meus amores e os dela têm sido sempre platônicos, sem se atreverem a mais que a um olhar honesto; e ainda isso tão de longe em longe, que me atreverei a jurar-te com verdade que em doze anos (que tantos há que eu lhe quero mais que à luz destes olhos que a terra há-de comer) não a tenho visto quatro vezes; e até poderá ser que destas quatro vezes nem uma só ela em tal reparasse; tamanho é o recato e encerro com que seu pai Lourenço Corchuelo, e sua mãe Aldonça Nogales a criaram.
 

— Tenha lá mão — disse Sancho — pois a filha de Lourenço Corchuelo é que é a senhora Dulcinéia del Toboso, chamada por outro nome Aldonça Lourenço?
 

— Essa é — disse D. Quixote — é essa a que merece ser senhora de todo o universo.
 

— Bem a conheço — disse Sancho; — o que sei dizer é que atira tão longe uma barra como o mais alentado pastor daquele povo. Vive Deus, que é um raparigão de truz, direita e desempenada, e de cabelinho na venta, e que pode tirar as barbas de vergonha a qualquer cavaleiro andante ou por andar, que a tiver por sua dama. Filha da mãe! que rija dos nós! que vozeirão! O que posso dizer é que se pôs um dia no alto da torre da aldeia a bradar por uns moços da casa, que andavam longe numa courela do pai; e, ainda que estavam a mais de meia légua, ouviram-na como se a torre estivesse ali ao pé; e o melhor que tem é que não tem nada de nicas, porque é muito levantada, com todos caçoa e de tudo faz galhofa. Agora é que eu digo, senhor Cavaleiro da Triste Figura, que não só pode e deve fazer Vossa Mercê desatinos por ela, senão que terá carradas de razão de se desesperar e até enforcar-se. Não há ninguém que em o sabendo não diga que fez muito bem, ainda que o leve o diabo. Tomara-me já em caminho só por vê-la, que a não vejo há já muitos dias, e deve a estas horas estar muito demudada, porque o andar sempre ao ar e ao sol estraga muito o carão das mulheres. Uma verdade lhe confesso eu, senhor D. Quixote, e é que tinha vivido até aqui numa grande ignorância, porque entendia, e era capaz de o jurar, que a senhora Dulcinéia devia ser alguma Princesa, de quem Vossa Mercê estava enamorado, ou alguma pessoa tão de costa acima, que merecesse os ricos presentes que Vossa Mercê lhe tem enviado, tais como o do biscainho, o dos forçados das galés e outros, que muitos devem ser, segundo a quantia das vitórias que Vossa Mercê
terá ganhado e ganhar, no tempo em que eu não era ainda seu escudeiro.
Mas agora, considerando bem, que proveito dará à senhora Aldonça Lourenço (quero dizer, à senhora Dulcinéia del Toboso) o irem-se lançar de joelhos diante dela, os vencidos que Vossa Mercê lhe envia e há-de enviar? porque poderia suceder que, na ocasião deles chegarem lá, estivesse ela tasquinhando linho ou malhando na eira, e eles se envergonhassem de a ver, e ela se risse e aborrecesse do presente."

"— Assim, Sancho, para o que eu quero a Dulcinéia del Toboso, tanto vale ela como a mais alta Princesa do mundo. Olha que nem todos os poetas, que louvam damas debaixo de um nome que eles arbitrariamente lhes põem, as têm na realidade. Pensas tu que as Amarílis, as Fílis, as Sílvias, as Dianas, as Galatéias, e outras quejandas de que andam cheios os livros, os romances, as lojas de barbeiros, os teatros das comédias, foram realmente damas de carne e osso, e pertenceram àqueles que as celebram e celebraram? Decerto que não. As mais delas inventaram-nas eles para assunto dos seus versos, e para que os tenham por enamorados, e homens de valia para o serem. Segundo isso, baste-me também a mim pensar e crer que a boa de Aldonça Lourenço é formosa e honesta. Lá
a sua linhagem importa pouco; não hão-de ir tirar-lhe as inquirições para dar-lhe algum hábito; para mim faço de conta que é a mais alta Princesa do mundo. Porque hás-de saber, Sancho, se o não sabes, que há duas coisas só, que mais que todas as outras incitam a amar: são a formosura e a boa fama; e ambas estas coisas são em Dulcinéia extremadas, porque em lindeza nenhuma a iguala, e em boa nomeada poucas lhe chegam; e, para acabar com isto, imagino eu que tudo que te digo é assim, sem um til de mais nem de menos; pinto-a na fantasia como a desejo assim nas graças como no respeito; nem Helena lhe deita água às mãos, nem Lucrécia, nem outra alguma das famigeradas mulheres das idades pretéritas, grega, bárbara ou latina; digam o que quiserem; se por isto me
repreenderem os ignorantes, não me condenarão os justiceiros."

— "Ó senhora minha Dulcinéia del Toboso, extremo de toda a formosura, fim e remate da discrição, arquivo do melhor donaire, depósito da honestidade, e ultimamente idéia de tudo quanto há de proveitoso, honesto e deleitável no mundo;"

Paisagem 2

navegando a bicicleta manca
cheiro de esterco, paisagem branca

os centauros galoparam tarde
rastro no espinheiro, mel de agave

no canavial as motos nitrem
e não há árvore sob o líquen

há muitas imitações do mar

quarta-feira, 7 de junho de 2023

sal do sul

sou do sal do sul
da flor da guerra

sou do céu azul
do pó da terra

sou da luz do sol
da pele escura

sou o que restou
ilha futura

sou brejo da cruz
lótus do lixo

sou o que traduz
o outro bicho

sou o que se foi
a velha raça

sou o que depois
tragédia e graça

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

BORGES SOBRE VERNE E WELLS

"Harris refere que Oscar Wilde, interrogado sobre Wells, respondeu: 

– Um Julio Verne científico.


O ditame é de 1899, se adivinha que Wilde pensou menos em definir Wells ou em aniquilá-lo do que em passar para outro tema. H. G. Wells e Júlio Verne são agora nomes incompatíveis. Todos sentimos assim, porém o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se fundamenta pode não ser inútil.


A mais notória dessas razões é de ordem técnica. Wells (antes de se resignar a especulador sociológico) foi um admirável narrador, um herdeiro das brevidades de Swiftt e Edgar Allan Poe; Verne, um jornalista laborioso e risonho. Verne escreveu para adolescentes; Wells, para todas as idades do homem. Há outra diferença, já denunciada alguma vez pelo próprio Wells: as ficções de Verne giram em torno de coisas prováveis (um navio submarino, um navio maior do que os de 1872, o descobrimento do Pólo Sul, a fotografia falante, a travessia da África num balão, as crateras de um vulcão extinto que dão no centro da terra); as de Wells em meras possibilidades (um homem invisível, uma flor que devora um homem, um ovo de cristal que reflete os acontecimentos em Marte), quando não em coisas impossíveis: um homem que regressa do futuro trazendo uma flor do passado; um homem que regressa da outra vida com o coração no lado direito, porque o inverteram integralmente como num espelho. Eu li que Verne, escandalizado com as licenças que se permite The First Men in the Moon, disse com indignação: Il inventé!




As razões que acabo de indicar me parecem válidas, mas não explicam porque Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac, assim como também a Rosney, a Lytton, a Robert Paltock, a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. A maior felicidade de seus argumentos não basta para resolver o problema. Em livros não muito breves, o argumento não pode ser mais que um pretexto, um ponto de partida. É importante para a execução da obra, não para deleites da leitura. Isto pode ser observado em todos os gêneros; as melhores novelas policiais não são as de melhor argumento. (Se o fossem todos os argumentos, não existiria o Quixote e Shaw valeria menos do que O’Neill.) Em minha opinião, a precedência das primeiras novelas de Wells – The Island of Dr. Moreau, por exemplo, ou The Invisible Man – se deve a uma razão mais profunda. Não é apenas engenhoso ao que se referem; é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. O acossado homem invisível que tem que dormir como que com os olhos abertos porque suas pálpebras não excluem a luz é nossa solidão e nosso terror; (…) A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambiguidade; é tudo para todos, como o Apóstolo; é um espelho que revela as características do leitor e é também um mapa do mundo. Isto deve ocorrer, ainda, de um modo evanescente e modesto, quase a despeito do autor; este deve parecer ignorante de todo simbolismo. Com essa lúcida inocência, Wells trabalhou em seus primeiros exercícios fantásticos, que são, em meu entender, o mais admirável de sua obra admirável.

Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se a doutrinas contrárias às suas. Desde já, o meu caso não é este: agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells, porém lamento que ele as tenha intercalado em suas narrações. Bom herdeiro dos nominalistas britânicos, Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da “Inglaterra” ou das maquinações da “Prússia”; os argumentos contra essa mitologia prejudicial me parecem impecáveis, mas não a circunstância de interpolá-los na história do sonho do senhor Parham. Enquanto um autor se limita a referir acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; mas quando se rebaixa a raciocinar, o sabemos falível. A realidade procede por fatos, não por raciocínios;"

(Texto retirado da obra completa de Jorge Luis Borges)

Édipo em Hunter x Hunter

De um lado há Kilua com suas relações familiares complexas e conturbadas entre irmãos, pais e avós, tentando fugir paranoicamente do controle que os outros exercem sobre ele. Na outra ponta há Gon, que não tem família e sai pelo mundo em busca do pai. A história de Hunter x Hunter é a história de uma caça ao pai (que ora pode ser interpretada como caça literalmente, ora como busca). Aparentemente os dois personagens encarnam Édipo. Aceitar isso implica na seguinte interpretação: Ging é simplesmente um pai que abandona o filho e é digno de desprezo por isso. O próprio anime sugere isso através da figura de Mito. Porém, é possível fazer uma leitura anti-edipiana da relação entre Gon e Ging, uma leitura na qual o núcleo dos acontecimentos não é a história familiar, mas exatamente a sua extrapolação. Para Gon o pai não é o pai.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Boris Vian: Não queria partir

Não queria partir

Sem ter conhecido
Os cães negros do México
Que dormem sem sonhar
Os macacos de bunda glabra
Devoradores de trópicos
As aranhas prateadas
De ninho carregado de bolhas
Não queria partir
Sem saber se a lua
Sob sua falsa cara de moeda
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Se as quatro estações
São de fato apenas quatro
Sem ter experimentado
Usar um vestido
Nos grandes bulevares
Sem ter beijado
Uma boca-de-lobo
Sem ter fincado meu pau
Em insólitos lugares
Não queria acabar
Sem conhecer a lepra
Ou as sete doenças
Que se pegam por lá
O bom nem o mau
Me causariam tormento
Se deles gozasse
O primeiro momento
E há também
Tudo o que conheço
Tudo o que aprecio
O que sei que me agrada
O fundo verde do mar
Onde valsam as algas
Sobre a areia ondulada
A relva crestada de junho
A terra que greta
O cheiro dos pinheiros
E os beijos daquela
Que isso que aquilo
A coisa mais bela
Úrsula, meu ursinho
Não queria partir
Antes de ter gasto
Sua boca contra minha boca
Seu corpo contra minhas mãos
O resto contra meus olhos
Não digo mais nada é preciso
Manter respeito
Não queria morrer
Sem que tenham inventado
As rosas eternas
A jornada de duas horas
O mar na montanha
A montanha no mar
O fim das dores
Os jornais em cores
A felicidade das crianças
E tantas coisas mais
Que dormem nos crânios
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos solícitos socialistas
Dos urbanos urbanistas
E dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e ouvir
Tanto tempo esperando
Procurando no escuro

E vejo o fim
Que fervilha e que chega
Com sua horrível careta
E que me abre os braços
De sapo maneta

Não queria partir
Não senhor não senhora
Sem ter apalpado
O gosto que me atormenta
O gosto mais forte
Não queria partir
Sem ter provado
O sabor da morte...

:

Je voudrais pas crever

Je voudrais pas crever
Avant d’avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d’argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un côté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d’égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu’on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j’en aurai l’étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j’apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d’algue
Sur le sable ondulé
L’herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L’odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l’Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J’en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu’on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir

Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s’amène
Avec sa gueule moche
Et qui m’ouvre ses bras
De grenouille bancroche

Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d’avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu’est plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir goûté
La saveur de la mort...

sábado, 18 de junho de 2022

Roberto Bolaño: Fragmento de Os detetives selvagens

Um dia perguntei a ele por onde havia andado. Ele me disse que havia percorrido um rio que une o México à América Central. Que eu saiba, esse rio não existe. Disse, no entanto, que havia percorrido esse rio e que agora poderia dizer que conhecia todos os seus meandros e afluentes. Um rio de árvores ou um rio de areia, ou um rio de árvores que às vezes se convertia num rio de areia. Um fluxo constante de gente sem trabalho, de pobres e mortos de fome, de droga e de dor. Um rio de nuvens em que tinha navegado doze meses e em cujo curso havia encontrado inúmeras ilhas e povoados, mas nem todas as ilhas eram povoadas, e às vezes ele tinha achado que ficaria vivendo ali para sempre ou que morreria.

De todas as ilhas visitadas, duas eram portentosas. A ilha do passado, disse, onde só existia o tempo passado e na qual seus moradores se entediavam e eram razoavelmente felizes, mas onde o peso do ilusório era tal que a ilha ia afundando no rio cada dia um pouco mais. E a ilha do futuro, onde o único tempo que existia era o futuro e cujos habitantes eram sonhadores e agressivos, tão agressivos, Ulisses disse, que provavelmente acabariam se comendo uns aos outros.

{Em: BOLAÑO, Roberto. Os detetives selvagens. Companhia das Letras, 2006 p. 378}

terça-feira, 14 de junho de 2022

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

XXVII

Há uns eclipses, há; e há outros casos:
de sementes de coisas serem outras,
rochedos esvoaçados por acasos
e acasos serem tudo, coisas todas.
Lãs de faces, madeiras invisíveis,
visão de coitos entre os impossíveis,
folhas brotando de âmagos de bronze,
demônios tristes choros nas bifrontes.
Tudo é veleiro sobre as ondas íris,
condores podem ser os baixos ramos,
montes boiarem, aços se delirem.
Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,
lábios sedentos, lírios com ventosas,
ódios gerando flores amorosas.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

XVIII 


Éguas vieram, à tarde, perseguidas,
depositaram bostas sob as vides.
Logo após borboletas vespertinas,
gordas e veludosas como urtigas
sugar vieram o esterco fumegante.
Se as vísseis, vós diríeis que o composto
das asas e dos restos eram flores.
Porque parecem sexos; nesse instante,
os mais belos centauros do alto empíreo,
pelas pétalas desceram atraídos,
e agora debruçados formam círculos;
depois as beijam como beijam lírios.

Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

XIV 

 

O dom do sono representa a vida
dessa ilha tormentória e principal,
esquecida dos povos primitivos,
entre Altair e o Cisne solsticial.
Chamaram-na Ultra-sombra e a consagraram
à clausura do amor em túnel ébrio.
Em agosto a imolaram a um deus surdo.
Urdo eu clérigo a rota e o cosmolábio.
Os ouvidos do deus são duas conchas
que deglutem impulsos inviolados
e os transformam enfim nestas reais fontes
que necessitam ser adivinhadas.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Tanto mar

Imperpetuáveis ninfas
No ciberespaço do céu de Hong Kong
Sombras se esvaindo no juncal

Fauno delirando entre bombas
Abraçando o sonho e o real
Amassando o ar

Incomunicáveis corpos
Pulsam no espelho elétrico do mar de Bangkok
Hostes se adensando no jornal

Falos balas gás lacrimogêneo
Náufrago no artificial
Monte Santo Paz Celestial
 
Myanmar Myanmar Myanmar Myanmar
 
Quem sabe as almas toquem-se afinal
Nas vagas calles vogues sol de Medellín
Infinitas almas

quarta-feira, 9 de março de 2022

Décio Pignatari sobre o kitsch e os novos ricos

 A consequência imediata do novo-riquismo é a tentativa de aumento de repertório, a aquisição de informações. Mas, aqui, também, a tradução de um repertório ou código mais amplo para um mais reduzido é inevitável num primeiro estágio, gerando uma aparência de repertório, cuja manifestação mais típica é o kitsch. O kitsch é uma aparência de repertório mais amplo (móveis imitando o colonial, por exemplo), uma vontade de repertório mais amplo que simbolize o novo status social. E como a base econômica corresponde realmente a um repertório maior, este pode, de fato, alargar-se (às vezes, na geração seguinte). Deste ponto de vista, a kitschização da cultura superior, levada a efeito pela massa afluente, pode ter caráter progressivo, podendo mesmo ser considerado como o processo de renovação das elites.


{em: Décio Pignatari. Informação, linguagem, comunicação. Ed. Cultrix: São Paulo, 1984.}

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Paisagem

Um avião ocasional
Marulho da avenida
E a branca cicatriz boia no azul
 
Incêndios no horizonte
Horizonte nenhum

Revoada, alta tensão
Arrulhos no telhado
E o farfalhar elétrico do quarto

Espelhos em silêncio
Silêncio sob o chão

Um diabo ri calado na televisão

Indo para o Norte

Me sinto um pouco solitário
Caminhando pra Bahia
Chego em Hokkaido

O sertão é o mundo inteiro
Mas nasci com essa sina:
Ser brasileiro

Minha terra tem palmeiras
Sussurrando em outras línguas
Tão estrangeiras

Gosto muito de fulana
Acredito na vacina
Não tenho grana

Mundo mundo vasto mundo
Se eu soubesse outra rima

sábado, 4 de dezembro de 2021

MÁRIO DE ANDRADE: ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase faá sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"-- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-- Um colar... -- Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

terça-feira, 2 de novembro de 2021

HU XUDONG (胡续冬): CAI UM RAIO (一个雷劈下来)

Cai um raio


Cai um raio e as vacas param de pastar.
Grupos de vacas se metem dentro dos cabos para comer eletricidade fértil
e você perde o acesso à internet. Você só pode comer
carne bovina elétrica e beber leite elétrico na noite triste.
 

Cai um raio e os carros começam
a dar à luz. Um carro-mulher dá à luz uma ninhada de carrinhos
que correm pelas estradas. Mas o carro-homem ainda fica em cima dela
fodendo e gemendo: vrum vrum, minha querida Fiat, vrum vrum.
 

Cai um raio e até os mosquitos morrem
com o tremor. Mas o meu companheiro de quarto, Rubén, ainda pode se meter
na garganta da tempestade para atender o telefone. Habla! Ele vem da
Espanha e quem chama é o pintor surdo Goya.
 

Cai um raio e o vizinho bêbado vê
a sua esposa se tornar uma guitarra nua, tocada,
faiscando pelo raio que penetra na janela.
Ele esmaga o pau do relâmpago e dança um samba sozinho.
 

Cai um raio e aqueles que se banham começam
a dar banho nos outros; aqueles que dormem começam
o sono dos outros; aqueles que agitam a festa toda a noite
começam a capturar os beija-flores nos relógios de pulso, uns dos outros.
 

Cai um raio e o Brasil não é mais o Brasil.
O Brasil se vende ao trovão. Os raios, um após o outro,
caem. Os Brasis são rachados, um após o outro.
Entre os Brasis você desapareceu.

 

一个雷劈下来


一个雷劈下来,牛就不吃草了,

成群的牛钻进了电缆里吃肥沃的电,

你就上不了网了,你就只能

在忧伤的夜里吃电牛肉、喝电牛奶了。


一个雷劈下来,汽车就开始

生孩子了,一辆母汽车生下了一窝小汽车

在马路上乱跑,但公汽车还趴在它身上

咻咻地搞:滴滴,我亲爱的菲亚特,滴滴。


一个雷劈下来,连蚊子都被

震死了,室友鲁文居然还能钻进

暴雨的喉咙里接电话。Habla!他来自

西班牙,和他通话的是聋子画家戈雅。

一个雷劈下来,喝醉了的邻居看见

他老婆变成了光溜溜的吉他,被

翻窗进来的闪电弹出了火花。

他砸烂了闪电的鸡巴,独自跳桑巴。


一个雷劈下来,洗澡的人就开始

洗别人的澡,睡觉的人就开始睡

别人的觉,那些开通宵派对的人

就开始互相捕杀手表里的蜂鸟。


一个雷劈下来,巴西就不是巴西了,

巴西就把巴西卖给雷了。一连串的雷

劈下来了,一连串的巴西都被劈开了。

你在一连串的巴西里面不见了。 

(tradução: Inez Zhou e Marcelo F. Lotufo)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A INTERNET DE DEZ ANOS ATRÁS

hoje me lembrei de algumas coisas que conheci pela internet quando era adolescente e que foram muito importantes para a minha formação: 

- a série de desenhos "o etnógrafo naif" de pierre lapalu. provavelmente foi através desse título que conheci a palavra etnografia e desperteu meu interesse pelas ciências sociais;

- o quadrinho experimental "promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo"de pedro franz. por coincidência (ou não), essa obra também citava conceitos de antropologia, se não me engano de clifford geertz. além disso, era um jeito de fazer quadrinhos muito diferente do tradicional. e foi através do pedro franz que acabei conhecendo quadrinistas como alberto breccia, berliac e aidan koch. agora ando afastado do mundo dos quadrinhos, mas tudo isso teve muita importância pra mim;

- ainda falando em quadrinhos: o site "ryotiras" do ricardo tokumoto. mais do que as tiras em si (que eram muito boas), este site foi uma espécie de guia da internet pra mim, porque em toda tira tinha um link, além de referências no título que eu ia logo pesquisar. e acabei conhecendo muita coisa assim.

- o site "trama virtual". era minha principal fonte de música nova. foi provavelmente onde eu conheci artistas e bandas como júpiter maçã, procura-se quem fez isso, thiago nassif, zeca viana e muitos outros que já esqueci.

- alguns blogues de escritoras e poetas como o da aline zouvi (que depois se tornou quadrinista) e o da juliana amato (inclusive fiz uma canção a partir do título do blogue dela: "medeia quer cachaça"). também o do antônio cícero ("acontecimentos"), um dos poucos que ainda continuam ativos.

- o ilustragrupo, lista de e-mail que reunia ilustradores do brasil inteiro e tinha muitas dicas sobre o mercado. provavelmente foi um dos motivos de eu ter resolvido não seguir uma carreira em ilustração, mas aprendi muito sobre a vida de freelancer.

- o blogue o barco bêbado, que era um blogue de cultura, onde li poemas dos irmãos campos, de rimbaud, marcelo dolabela, descobri filmes, músicas, baixei uma coleção de fotos tiradas em woodstock e muitas outras coisas.